Negro

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Morte.
Hoje lidei com a morte de perto. De bem perto. Da loja reparamos que estava um senhor caído no chão na paragem do autocarro. Com pessoas à volta. Logo a seguir chega o autocarro e eu e a minha B. vimos, incrédulas, as pessoas a passarem por cima do senhor como se fosse um papel e a entrar no autocarro. Corri porta fora ao perceber que iam deixar o senhor sozinho. Uma senhora passa-me o telefone para a mão e pede-me para continuar a falar com o INEM, porque ia embora. Achando que o telemóvel era dela questionei-a ao que ela respondeu “é do senhor”. Lá fui respondendo ao enfermeiro do INEM enquanto eu e um rapaz fantástico que apareceu, íamos tentando perceber se o senhor tinha pulsação. Chegou o INEM breves minutos depois de eu ter desligado a chamada. Fizeram de tudo para o salvar. Tudo aquilo que vemos na Anatomia de Grey ao vivo é bem mais traumático. Ver os olhos sem vida e a cor cada vez mais arroxeada, apesar de todos os esforços e técnicas, é algo que não vou esquecer nunca. O senhor A. não resistiu. A família chegou e soube da notícia ao meu lado. Demos água a todos que se sentiram mal. Ajudamos o INEM no que podemos. Sinto-me em choque por ter visto uma vida a fugir à frente dos meus olhos. Sinto-me em choque por ver a forma tão pouco humana de tratar alguém que todos os dias ia no mesmo autocarro que elas. Alçaram a perna por cima do senhor e entraram. Como se nada se estivesse a passar.  Mesmo que fosse um perfeito desconhecido, é um marido e pai – e talvez avô – de alguém. No caso, das pessoas que eu vi quebrar de dor com o pior desfecho possível. Que Deus permita que ninguém, do meu Mundo de Afectos ou perfeitos desconhecidos, morram no chão sem ter alguém que lhes apoie a cabeça e esteja lá. Eu estive. O rapaz esteve. As minhas colegas estiveram. Os médicos do INEM também. O resto que se juntou, com excepção de pelo menos uma senhora que estava na paragem e que ficou, esteve a insultar quem estava a tentar salvar uma vida. Apeteceu-me dar-lhes um berro e mandar calá-los a todos. Não são os médicos e enfermeiros, que estavam lá, que gerem o INEM nem são os responsáveis pela maior ou menor rapidez com que atendem as chamadas. Vi nos olhos deles a tristeza de terem perdido a “batalha”. Não deve ser NADA fácil. ♥

Descanse em Paz, Sr. A. ♥

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