Quénia

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Conheci África muito nova. Pisei solo africano aos onze anos, quando visitei os meus pais e irmãs que tinham emigrado no ano anterior para o ex-Zaire. Actual República Democrática do Congo. Regressei várias vezes em férias escolares. Não conheci bem o país. Lembro-me de uma capital desordenada, com vendedores de tudo – desde bananas a macacos – e muita confusão de trânsito e  pessoas. A cidade onde os meus pais viveram quase dez anos – Boma -, bastante distante de Kinshasa, era pequena e calma. Com ruas de terra e casas quase todas térreas. Andávamos todo o dia com os filhos de outros emigrantes portugueses e belgas que lá moravam. Foram férias felizes. Hoje, adulta e amante de viagens, teria gostado de conhecer mais. Na altura, ainda criança, ter três meses de férias num clima fantástico e com um bando de outras crianças para brincar… era o paraíso. Ficou na minha memória a cor vermelha da terra, as cores sublimes do céu e do sol, o cheiro do pão quente fabuloso e vendido na rua. O “bichinho de África” começou aí. Só quem viveu algum tempo lá entende. Fica entranhado em nós. <3

Visitei alguns países africanos mais tarde. Tunísia e Cabo Verde são excelente destinos de férias e praia, mas não me senti em África. Em São Tomé e Príncipe a sensação foi diferente. Mal aterrei e saí do avião, o cheiro era aquele. Estava na minha África. Tinha regressado a casa. E a semana que lá estive, reforçou a sensação. Adorei a Ilha, as pessoas, o verde luxuriante das paisagens, a cor verde do mar translúcido, a comida e as frutas tão familiares das minhas férias da infância. Senti que aquele cantinho seria um local onde me inaginaria a morar. A acabar os meus dias. <3

Quénia. Começou por ser um sonho que acreditei só ter capacidade para concretizar já reformada. Sempre quis fazer um safari. Mesmo trabalhando em agências de viagens, sempre foi excessivamente caro. E acabou por ser possível fazer à custa de uma tarifa de avião muito económica e de um agente local que tratou de tudo ao pormenor para o meu safari de sonho. Estivemos quatro dias em Masai Mara. Apaixonei-me pela savana ao primeiro olhar. Os animais em liberdade, foram um extra ao que mais amei. A savana. A terra ainda mais vermelha que no Zaire. Os mesmos tons de céu e sol. As árvores lindas da savana. Vimos manadas de elefantes, com bebés junto às mães. Gnus a amamentarem crias. Leoas a comer a caçada do dia. Foi mágico. Passei lá dos dias mais felizes da minha vida. Em paz. Em África. Na minha África. Diferente de Boma das minhas férias infantis. Diferente da verdejante São Tomé. Igual no que me fez sentir. Em casa.

O massacre em Nairobi chocou-me, como deveria ter chocado o Mundo. Não sendo na Europa ou nos Estados Unidos, tudo parece ter um impacto tão mais pequeno. E isso é tão mau. Tão triste. Tão desumano. Como se as vidas de uns fossem mais importantes que outras. O que se passou em Paris não se deveria ter passado. Como o que se passou em Tunis. Ou agora em Nairobi. Toda a espécie de violência, segregação racial ou religiosa, actos de terrorismo, são realidades com as quais temos que lidar mas nunca aceitar. Estive numa Quénia em paz. Desejo muito que volte à normalidade a que assisti. A uma Nairobi segura e calma. Cidade em que as pessoas não tenham medo de sair à rua e serem atacados.

Je suis Charlie.
Je suis Kenyan.

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2 comentários (+add yours?)

  1. Ary Patel
    Abr 07, 2015 @ 18:35:32

    Que linda reflexão… Concordo plenamente.

    Responder

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